O Egito abrigava dois tipos de escorpiões: um mais
escuro e relativamente inofensivo e outro mais claro, mais venenoso. A deusa Selkis tomava justamente a forma de um
desses animais e, apesar da periculosidade do bicho, era uma divindade
protetora e curadora que defendia contra a picada desses artrópodes. Seu nome
no idioma egípcio era Serket-Heru, que significa aquela que faz a
garganta respirar ou a que facilita a respiração na garganta, já que
a picada do escorpião produz asfixia. Essa denominação também se relaciona com
a ajuda que a deusa prestava para que o recém-nascido ou o defunto, em seu
renascimento, pudessem respirar. Nos textos funerários surge como a mãe dos
defuntos, aos quais amamenta. No além-túmulo ela ajudava no processo de
renascimento do falecido e o orientava e dava-lhe o sopro da vida. Foram os
gregos que lhe deram o nome de Selkis, nome que também aparece grafado
como Serqet, Serket, Selqet, Selket, Selkit ou Selchis.
Essa divindade podia ser representada de diversas
maneiras:
- Como uma linda mulher com um escorpião na cabeça,
como nesta graciosa estatueta em madeira dourada que vemos acima, descoberta no
túmulo de Tutankhamon (c. 1333 a 1323 a.C.);
- Como uma mulher com cabeça de escorpião;
- Mais raramente, como um escorpião com cabeça e
braços femininos e tendo como toucado chifres de vaca e o disco solar, como
vemos na ilustração abaixo, a qual reproduz um bronze de 7 centímetros de
altura por 10 centímetros de profundidade pertencente ao Museu do Louvre;
- Como um escorpião;
- Na XXI dinastia (c. 1070 a 945 a.C.) podia
aparecer com cabeça de leoa, cuja nuca era protegida por um crocodilo.
Quando assumia a forma de um escorpião, o animal às
vezes era mostrado sem cabeça e sem cauda, pois desta maneira ele perdia seu
veneno e se tornava inofensivo, podendo ser representado dentro do túmulo sem
perigo. E assim era porque os egípcios acreditavam que todos os seres vivos
representados nas tumbas poderiam ganhar vida se as fórmulas mágicas adequadas
fossem pronunciadas. Portanto, era importante neutralizar o perigo de certas
imagens reduzindo-as à impotência. Essa deusa-escorpião se identificava com o
calor abrasador do Sol e era uma das quatro divindades protetoras de ataúdes
reais e dos vasos canopos, dos quais ela guardava aquele que continha os
intestinos.
Trata-se de uma divindade que já aparece no Império
Antigo (c. 2575 a 2134 a.C.) como guardiã do trono real e vem rodeada de
simbologia mágica. Ela protegia das picadas venenosas de escorpiões, serpentes
ou outros animais peçonhentos e curava as pessoas que, acidentalmente, tivessem
sido atacadas por esses animais, sobretudo quando se tratasse de crianças e
mulheres grávidas. Mas também poderia punir os ímpios com esses mesmos venenos,
levando-os à morte. Também era deusa da união conjugal e ajudava as mulheres na
hora do parto. Era filha de Rá e cuidava para que a serpente Apófis não
escapasse do mundo inferior. Nos textos conhecidos modernamente como Livro
de Him no Inferno vem descrito o que acontece no além-túmulo. O deus-Sol
tem as 12 horas do período noturno para renascer. A cada hora corresponde um
estágio de sua jornada no além. Apófis tenta engolir o deus-Sol durante essa
jornada e representa uma grande ameaça. Na sétima hora Selkis aparece para
combater a serpente Apófis. Rá em seu barco assiste a captura da serpente.
Finalmente Selkis, com ajuda de outra divindade, capturam o demônio e subjugam
a cabeça e a cauda do monstro e trespassam com punhais a cabeça e o corpo da
cobra. Selkis desempenha, também, um papel importante na lenda de Ísis e Osíris,
pois enviou sete dos seus escorpiões para protegerem Ísis do deus Seth que a
perseguia.

Protetora de vivos e mortos, essa deusa não
dispunha de um lugar de culto em particular. Sendo originariamente adorada no
delta do Nilo, seu culto se espalhou por todo o Egito e isso pode ser
considerado natural uma vez que as cobras e escorpiões eram abundantes no país
e o povo precisava de uma proteção mágica contra eles. Embora tivesse
sacerdotes dedicados ao seu culto, aos quais ela protegia e delegava seus
poderes mágicos, até hoje não foi encontrado qualquer templo que lhe fosse
consagrado. Ela figurava sobretudo nas fórmulas mágicas ou nas paredes das
tumbas com o objetivo de proteger o defunto de qualquer ataque. As pessoas
usavam amuletos com a forma do escorpião para se protegerem contra as perigosas
picadas do animal e até mesmo curá-las.
Os sacerdotes de Selkis eram verdadeiros médicos e
magos ou curandeiros, dedicados à cura de picadas de animais venenosos. Suas
habilidades de encantadores de escorpiões e de serpentes eram muito
requisitadas, a julgar pelo enorme número de encantamentos para repelir tais
animais e para curar suas picadas que aparecem nos papiros egípcios. Isso
indica a extensão do problema, o qual ainda é comum no Egito moderno. Esses
homens eram chamados de Kherep Selket, literalmente, aquele que tem
poder sobre a deusa escorpião. No antigo Egito um Sacerdote Leitor e um
doutor poderiam também ter o título de Kherep Selket. O título de Sunu,
que significa doutor ou médico, era atribuído a pessoas que prescreviam
remédios tanto médicos quanto mágicos. Hoje em dia os encantadores de serpente
usam técnicas práticas para enlaçar suas presas, mas eles também ainda confiam
em cantos mágicos.
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