sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A Percepção do Poder


O que é poder?

Talvez essa seja uma pergunta retórica, e uma das mais difíceis de responder. Na filosofia, poder pode ser compreendido como capacidade de agir, transformar, influenciar ou produzir realidade. Na religião, frequentemente se aproxima daquilo que transcende o indivíduo: o sagrado, o divino, a autoridade espiritual. Na Bruxaria, na Wicca e nas Tradições que trabalham com magia, entretanto, essas duas dimensões inevitavelmente se encontram.

Gosto de pensar no poder como a verdadeira arma de uma bruxa: a faca de dois gumes.

Um deles corta o ar. Rasga aquilo que não podemos tocar: o espírito, a intenção, o símbolo, o desejo, o mistério. É o gume etérico. O outro corta a carne. É visceral, terreno, material. Produz consequências. Transforma circunstâncias. Exige escolhas. Deixa marcas.

E talvez o poder mágico exista exatamente no encontro entre os dois.

Há quem procure o poder somente no alto. Na elevação, na luz, na pureza, na ascensão, na ideia de tornar-se cada vez mais límpido e espiritualmente elevado. Como se aproximar-se do Divino significasse necessariamente afastar-se da matéria. Mas não é só isso.

Há também quem procure o poder exclusivamente no sentido contrário: no obscuro, no sangue, na transgressão, naquilo que assusta, impacta ou parece visceralmente terreno. Como se quanto mais extrema fosse uma prática, mais poderosa ela necessariamente se tornasse.

Também não é tudo.
Luz não é sinônimo de poder. Escuridão também não.

Ervas, velas, incensos, sangue, oferendas, instrumentos, palavras e símbolos podem carregar um poder imenso, mas nenhum deles, isoladamente, constitui o poder da Bruxa. São linguagens. Veículos. Pontes entre aquilo que existe dentro e aquilo que se pretende manifestar fora.

Então chegamos a uma questão ainda mais desconfortável: o que é certo ou errado dentro de uma prática mágica? Talvez não exista uma resposta universal.

Cada tradição estabelece seus limites, suas éticas, seus interditos e suas responsabilidades. Cada Bruxa também terá de se confrontar, em algum momento, com a origem de sua própria vontade e com as consequências daquilo que coloca no mundo.

E aqui encontro uma reflexão preciosa no conceito thelêmico da 'Verdadeira Vontade'.

Verdadeira Vontade não é simplesmente fazer tudo aquilo que desejamos. Desejos são passageiros. Impulsos mudam. Vaidades nos confundem. A Verdadeira Vontade aponta para algo mais profundo: reconhecer a direção essencial de nossa própria existência e conseguir caminhar de acordo com ela.

Talvez seja justamente aí que o poder comece a se revelar. Poder não é apenas intensidade. É constância. Não é apenas romper. É também saber sustentar.

Não é somente transgredir aquilo que veio antes. Às vezes, é compreender profundamente uma Tradição, recebê-la, vivê-la e descobrir por que determinadas coisas sobreviveram ao tempo. E, sobretudo, poder exige verdade.

A verdade de quem opera. A verdade daquilo que é invocado. A verdade da relação estabelecida entre a Bruxa, sua Vontade e a fonte daquilo que ela reconhece como sagrado, seja essa fonte divina, espiritual, ancestral, natural ou profundamente terrena.

Talvez manifestar poder seja, afinal, menos sobre parecer poderoso e mais sobre ser capaz de sustentar aquilo que se manifesta.

Porque qualquer pessoa pode acender uma vela. Qualquer pessoa pode oferecer algo aos Deuses. Qualquer pessoa pode pronunciar palavras antigas, manipular ervas, desenhar símbolos ou realizar gestos carregados de significado.

Mas a pergunta permanece:

Quem está por trás desses gestos? Que vontade os conduz? Que verdade os sustenta? E o que essa pessoa está disposta a transformar, inclusive em si mesma, quando aquilo que pediu finalmente atravessar o invisível e tocar a matéria?

Talvez essa seja uma das percepções mais profundas do poder mágico: ele não está apenas no claro ou no obscuro, no espírito ou na carne, no céu ou na terra.

Está na capacidade de caminhar entre essas coisas. De conhecer a própria Vontade. De reconhecer a própria verdade. E, principalmente, de assumir a responsabilidade por aquilo que fazemos com ambas.

- Pedro Guardião.